( Resenha e fotos por Daniel Croce )
Eu sempre achei que, para um norueguês, alvo, acostumado ao frio, e ainda mais seguidor de filosofias, digamos, obscuras ( com o perdão do trocadilho "black" ) que volta e meia são associadas ao ( sub ) mundo Black Metal, seria um tanto quanto estranho vir tocar, e portanto propagar um pouco das suas tais filosofias, em países tropicais, onde, ora vamos, não há o menor sentido cultural em se apoiar certos alinhamentos ideológicos. Não, não estou dizendo que então, deveríamos escrever músicas louvando a Tupã, ou falando do Boitatá, da Mula sem cabeça, do saci pererê ou do curupira ( até porque de algum modo, alguém de fora do metal já deve tê-lo feito ), porém, certamente falando sobre o quão as terras gélidas, as florestas de vegetação ártica, com lobos ferozes pululando por lá, isso sem mencionar os personagens da mitologia local, tais como Odin, Thor, Fenrir e comparsas, é que não fariam, assim, muito sentido para nós, também.
Qual seria o denominador comum então, para duas culturas e países de climas e filosofias tão díspares? A mesma que me faz escrever aqui e você, a ler: música. Apenas isso. E poucos tipos de música fazem seres de sociedades tão conflitantes parecerem iguais, irmãos: Metal, é lógico. É um fato aqui nas regiões tropicais, enxergamos a música feita nos países nórdicos com certa admiração. Para eles, é uma forma de botar pra fora coisas bem mais perigosas do que imaginamos, algumas delas, psicóticas. Ou quem aqui não se lembra das polêmicas envolvendo agressões, insultos, incêndios criminosos, assassinatos, OPA, sim, isso mesmo, MORTE, isso sem contar suicídios e outras formas de auto imolação, muitas delas perigosas, protagonizadas pelo chamado "inner circle" do Black metal norueguês? E olha que nem parti para o quesito alinhamento a pensamentos racistas...
Black metal, infelizmente, nasceu de todas essas características mundanas, o lado mais sombrio da psiquê humana. Quando se tem tenras idades, adolescentes, ou menos seus 20 e poucos, a coisa fica mais explosiva, exatamente porque você se acha invencível e acha que aquela filosofia é uma verdade mais que absoluta, e que todo aquele que se opor a ela, deve ser imeditamente eliminado. Enquanto o elo entre nós e eles, com todo esse pensamento distorcido, for música, ótimo. Porque é disso que trataremos aqui. Quanto à magia, à ficção, a mitologia, os seres míticos, deidades, quaisquer elas sejam, e de qualquer lado que estejam, fazem parte da temática, vamos entrar no clima disso, pois é disso que o estilo é feito. Que seja atuação, palco, e não algo a se levar para casa, para o trabalho, para o local de estudo e de convívio social aos "não iniciados". Se os de fora já possuem pensamentos que não merecem nem citação ao Heavy Metal, quiçá o que achariam desta vertente em específico.
O Immortal - devidamente bem liderado ainda por Olve "Abbath" Eikemo - ainda bem, não possui nos seus membros centrais, algum ensandecido criminoso, porém, como todos ali são amigos, "primos", "compadres", criados nesse meio, eles todos foram. Os que aqui chegaram vivos, e não estão na cadeia, beiram seus 35 a 40 anos de vida. Parece que o ditado "quanto mais velhos, mais sábios", lhes cai bem como uma luva. Exatamente porque o resultado de duas décadas na atividade, é exatamente um amadurecimento musical inegável. E essas diferenças gritantes são vistas no set list, onde, mesmo não "tão" destoantes, as canções do fim dos anos 90 soam realmente mais polidas, menos ríspidas "apenas para tentar ser malvadinho". A bem da verdade, desde o album de 1997 "Blizzard Beasts" - data de estréia do magnífico baterista Reider "Horgh" Horghagen - a curva de melhorias foi ascendente e e em progressão geométrica. Considerem os chatos "truzões" do estilo a banda como vendida, mas dois anos depois, com "At the heart of the winter", não houve força que paresse o Immortal, musical e comercialmente, mesmo mantendo a brutalidade, rapidez, uma postura não-satanista, porém pragmatica, niilista e pessimista quanto a raça humana, no que concerne aos temas líricos, e óbvio, pró-terras gélidas.
Com "Damned in black" e "Sons of the northern darkness", a banda firmou-se no cenário mundial e ganhou mais reconhecimento, mas não sem amargar a perda do letrista Harald "Demonaz" Naevdal, que logo após "at the heart..." teve que cessar sua carreira guitarrística em detrimento à velha inimiga dos músicos e outras carreiras de esforço físico: a tentidinite. A qual, parece, no caso dele foi, e é, realmente crônica e dolorosa ( e quase sempre de caráter genético, como uma loteria que te "premia" com doenças degenerativas ). Isto não esmoreceu a vontade da banda continuar, que continua até hoje com além do chefe e frontman Abbath, o batera Horgh, e completados pelo baixista Ole Jorgen "Appolyon" Moe, no grupo desde o retorno oficial de atividades em 2006, e membro ou ex membro de incontáveis bandas e/ou participações na cena norueguesa. Ao que parece, a decisão de encerrarem atividades nos fins de 2002/começo de 2003, foi puramente uma fusão de várias razões pessoais.
E ainda bem que a dupla de resistentes e seus asseclas voltaram, pois fomos premiados com um senhor set list, que englobou pelo menos uma canção de cada disco da banda, com uma ênfase para a tal fase mais madura a qual citei. Se foi em "Blizzard..." que o amadurecimento começou, então foi no lançamento anterior, o não menos que épico, "Battles in the north" - raçudamente gravado por apenas Abbath/Demonaz, e estou incluindo a bateria nessa gama, responsabilidade do 1o mencionado - que eles gravaram seus dois primeiros video clips, e ganharam mais atenção da mídia metálica mundial, pela música, e não pelas fofocas e crimes que outros companheiros de "cena" protagonizavam. E ainda bem que estas duas épicas pérolas foram executadas: a faixa título e "Blashyrkh (Mighty Ravendark)".
Obviamente a tour tem como ênfase o excelente lançamento, depois de 7 anos de hiato de inéditas: "All shall fall", com letras ainda de total responsabilidade de Demonaz, além do acúmulo de responsabilidades de management do grupo. Com esmerada produção do "papa" da música extrema escandinava, Peter Tagtgren, é visível e audível o quão melhores esses caras podem soar. Aliás, muitos "kudos" a este sueco, pois a tetralogia começada com "At the heart..." e alcançada até agora, é de boa responsabilidade dele.
Volta o texto lá pra cima, e você vai ler o quão possivelmente contraditório poderia ser um encontro de pessoas de um país tropical, tremendamente cristão, com pessoas de passado nebuloso e de cultura nórdica, por vias anti religiosa. Se é, ambos lados ignoraram. O público praticamente lotou as dependências do Carioca club em Pinheiros. Ovacionou a banda bem antes mesmo dela pisar no palco, continuou fazendo durante e até o fim do show. Em resposta, mesmo carrancudo, Abbath claramente parecia "feliz", à vontade, eu diria até sorridente, soltinho da silva. Não é de seu feitio arroubos de agitação e animação de público, ao melhor estilo que Bruce Dickinson inventou fazer, como conduzir a platéia a levantar as mãos. E o cidadão de Bergen fez isso e alguns outros truques a mais também. Acreditem, isso é MUITA felicidade vinda dele, por mais que tão logo o show acabasse depois do bis, a banda nao perdesse tempo, corresse pra van e se mandasse do local ( ok, não podemos pedir tanta socialização calorosa em tão pouco tempo de contato assim, não é? ).
O ano está acabando e ainda seremos visitados por Dark Funeral e Satyricon. Mais ventos congelantes do extremo norte do planeta ainda vão varrer essas bandas calorentas daqui, provando que culturas não precisam colidir como ferro de armas, mas sim, serem admiradas, contempladas a distância, segura, para ambos, até que finalmente alguma hora, apenas a parte chamada "música" conte.
( Agradecendo aqui ao pessoal da Rádio Corsário e ao Júlio Viseu pela gentileza, pronto credenciamento e iniciativa em trazer tal importante banda para o país )
set list:
All Shall Fall
Sons of Northern Darkness
The Rise of Darkness
Damned in Black
Triumph
In My Kingdom Cold
Tyrants
The Call of the Wintermoon
Hordes to War
Mountains of Might
Battles in the North
Blashyrkh (Mighty Ravendark)
Encore:
Withstand the Fall of Time
One by One
The Sun No Longer Rises
Fotos em: http://s1122.photobucket.com/albums/l539/toscroce/immortal%20-%20sp/
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